Um judeu no mundo católico: conversa com Dom Bernardo Bonowitz

Dom Bernardo Bonowitz pertence à mesma ordem de monges que foram massacrados por muçulmanos radicais na África do Norte, episódio retratado no filme "Homens e Deuses", que estreou no Brasil em abril de 2011

Quando Jô Soares entrevistou o monge trapista americano Dom Bernardo Bonowitz por ocasião da estreia do filme “Homens e Deuses” (Des Hommes et des Dieux, 2010) no Brasil, o apresentador da rede Globo se superou em sua proverbial técnica da anti-entrevista e realizou a proeza de não fazer uma única pergunta sequer sobre o tema principal do longa: o massacre, em 1996, de monges trapistas em um mosteiro na Argélia (África do Norte) por muçulmanos radicais. Embora tenha chamado atenção para o estilo de vida monástico, o filme trouxe à tona um tema que, em tempos de promoção do ecumenismo, precisava ser muito mais debatido do que foi na grande mídia nacional: as crescentes tensões entre muçulmanos e cristãos em países islâmicos. Diante disso, uma entrevista mais aprofundada com Dom Bernardo Bonowitz, abade do mosteiro trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, localizado em Campo do Tenente (PR), se fazia necessária.

Nascido em Nova York (EUA) no seio de uma família judaica – e, portanto, judeu –, John Bonowitz, hoje com 62 anos, se converteu ao Catolicismo na juventude e ingressou na Ordem dos Cistercienses da Estrita Observância (Trapistas), a mesma dos monges retratados em “Homens e Deuses”, aos 24 anos, após se formar em Línguas Clássicas pela Universidade de Columbia. Com mestrado em Teologia pela Weston Jesuit School of Theology em Massachusetts (EUA) e autor de seis livros publicados no Brasil, Dom Bernardo Bonowitz (nome religioso) fala, na entrevista a seguir, a respeito dos conflitos entre muçulmanos e cristãos, mas vai além, abordando também a expansão do Islamismo, a crise (e ressurreição) da Igreja Católica no mundo contemporâneo e a presença da Teologia da Libertação no Brasil. Além disso, o abade rememora sua trajetória pessoal, conta como foi crescer no Judaísmo e se tornar católico, elucida seu amor pela tradição cultural ocidental e relembra como era ser cristão nos efervescentes anos 60 nos Estados Unidos.

—————————

Quando o filme “Homens e Deuses” começou a ser exibido no Brasil, o estilo de vida monástica ganhou grande atenção da mídia. No entanto, creio que a principal questão abordada pelo filme não foi devidamente debatida em nosso país: os conflitos entre grupos islâmicos radicais e cristãos. Antes de tudo, quero conhecer sua opinião sobre a religião de Maomé. O senhor acredita que o Cristianismo e o Islamismo, considerando atentamente as divergências entre suas visões de mundo, podem conviver pacificamente?

Lamento não ser melhor conhecedor do Islã do que sou. Basicamente, o meu conhecimento se limita ao judaísmo e cristianismo – e tomo esta pergunta como uma boa cutucada para aprender mais sobre o Islã. Mas sei que o Islã é uma religião construída sobre pilares que favorecem a paz e a convivência, e fico muito impressionado pela absoluta centralidade de Deus na vida dos muçulmanos, sua vida profunda de oração, e seu compromisso com a caridade fraterna. Sei que ultimamente saiu um documento dos muçulmanos apontando para muitos pontos de convergência com os cristãos. E, sim, acredito que as duas religiões podem conviver pacificamente.

O senhor acredita que é necessário distinguir entre muçulmanos “bons” e muçulmanos “radicais” ou, para um ocidental, todo muçulmano é potencialmente ameaçador?

A segunda alternativa me parece algo horrível. Como judeu, filho de uma religião perseguida durante milênios porque os judeus eram considerados uma ameaça, não posso aceitar a idéia de alguém ser “potencialmente ameaçador” por causa de sua fé. Para mim, o problema é o fator de militarismo, em qualquer religião que seja.

Muitas pesquisas apontam o crescimento do Islamismo no mundo. Em sua opinião, quais são os fatores que estão alavancando este crescimento?

Em 1999, eu disse à minha comunidade que o século 21 seria o século do Islã, quer dizer, o século de grande crescimento do Islã. Alguns fatores importantes são a clareza e força do compromisso envolvido; o fato de ser uma religião que abarca e integra todas as dimensões da vida; ser uma religião tanto masculina quanto feminina; uma religião onde o homem não sente vergonha, mas sim orgulho, por sua fidelidade à Lei de Deus; por oferecer uma alternativa a um secularismo vazio; e, finalmente, por ser uma religião que fala aos corações dos oprimidos e excluídos. Nos Estados Unidos, o Islã cresce muito entre os pobres e os presidiários.

“O ecumenismo é indispensável. É a única possibilidade. Acredito que a intuição da unidade fundamental das três religiões abraâmicas é muito importante”

Existem inúmeros relatos sobre muçulmanos que queimam, torturam e assassinam cristãos em países da África e Oriente Médio. No entanto, nunca se falou tanto sobre ecumenismo, nunca se promoveu tanto o Islamismo no ocidente. Diante destes fatos, o senhor acredita que o ecumenismo é possível de alguma forma?

Acredito que ecumenismo é indispensável. É a única possibilidade. Acredito que a intuição da unidade fundamental das três religiões abraâmicas é muito importante. Não sei como convencer os muçulmanos radicais que nós cristãos somos da paz e somos adoradores do mesmo Deus. Penso que os anos e anos da vida dos monges na Argélia foram um passo na direção certa e que o seu martírio ainda produzirá muitos frutos de harmonia.

Dom Bernardo Bonowitz e Jô Soares em uma edição de abril deste ano do talk-show do apresentador

Fala-se muito na “crise da Igreja Católica”. O próprio Papa Bento XVI, quando era o então cardeal Joseph Ratzinger, assumiu que a Igreja passava por uma crise no fim do segundo milênio. O senhor acredita que, se depender desta crise do Catolicismo, o Cristianismo poderá ser substituído pelo Islamismo futuramente, no sentido de ser uma força determinante nas decisões e nos rumos da sociedade ocidental?

Vejo que o Islamismo está sendo levado muito ao sério no ocidente atualmente. Às vezes de uma maneira amigável, às vezes de uma maneira defensiva. A força do Cristianismo na sociedade ocidental dependerá de uma apropriação da fé em Jesus Cristo e seu Evangelho. Por mais que ame a cultura cristã, não é ela que eu quero ver prevalecer, mas, sim, o conhecimento e seguimento de Jesus e a vida transformada que Ele nos traz.

“A força do Cristianismo na sociedade ocidental dependerá de uma apropriação da fé em Jesus Cristo e seu Evangelho”

Em sua opinião e com base em sua experiência concreta, qual é a real dimensão desta crise? A Igreja Católica poderá perder definitivamente a sua voz no mundo moderno?

Nas figuras dos dois últimos papas, João Paulo II e Bento XVI, a Igreja está encontrando sua voz no mundo moderno. Eles inspiram um imenso respeito, mesmo se eventualmente também despertem controvérsias. A pergunta é se os católicos vão continuar a “perder interesse” em sua Fé. Mais decisivo ainda é que vivemos um Catolicismo num estado de graves divisões acerca de questões éticas, morais e cultuais, e esta disputa consome a energia necessária para viver a nossa fé e tira a atenção das coisas infinitamente mais importantes.

O senhor acredita que o mundo vive uma crise com relação apenas à fé cristã católica ou uma crise espiritual de modo geral?

Acredito que no ocidente as expressões tradicionais do judaísmo, catolicismo e protestantismo vivem um cansaço e uma certa confusão. Talvez o exemplo mais claro seja a situação da Igreja Anglicana, tão sofrida em suas dissensões internas.  Mais largamente, acredito que o fenômeno e o desafio do ateísmo tocam o mundo inteiro de alguma maneira.

 Qual é, na opinião do senhor, o caminho que a Igreja Católica deveria retomar ou adotar para reconquistar sua influência e importância no mundo?

Os cristãos católicos devem retomar a vida dos primeiros cristãos, a “vida apostólica”, de oração, partilha, testemunho corajoso, participação na Eucaristia, não-violência, estudo bíblico – e que o resto seja como Deus quiser.

Embora nascido e crescido no meio judaico, o senhor certamente conheceu ou ao menos pôde observar os cristãos americanos. Que diferenças o senhor consegue perceber entre os cristãos americanos e os brasileiros?

Não sei se isto constitui uma diferença, mas o que me mais chamou a atenção dos cristãos na minha infância era a sua fome e sede de santidade. Tanto nas freiras como nos amigos católicos, vi um ideal de santidade – pelo menos o desejo de um ideal de santidade – que exercia uma grande atração sobre mim. Vi o que depois aprendi ter o nome de “beleza moral”, e me apaixonei por ela.

“Os cristãos que eu conheço no Brasil frequentemente não percebem o papel central do dogma, da teologia, na vida cristã. O resultado é um empobrecimento que deixa as pessoas somente com as suas tradições culturais e os seus sentimentos, mas a adesão permanente a Cristo não se mantêm por sentimentos”

Quando esteve no Brasil, o Papa João Paulo II disse que os brasileiros em geral eram “cristãos no sentimento, mas não cristãos na fé”, pois, segundo ele, não tinham conhecimento verdadeiro da doutrina cristã. O senhor concorda com o diagnóstico do Papa? Se sim, quais são as consequências mais problemáticas que, em sua opinião, podem resultar deste tipo de ignorância?

Acredito que os cristãos que eu conheço no Brasil frequentemente não percebem o papel central do dogma, da teologia, na vida cristã. Não entendem o que significa “Encarnação”, “Redenção”, “Ressurreição”. Quer dizer, não entendem como Deus age salvíficamente pela encarnação do Verbo, pela morte de Cristo na cruz, e pela sua ressurreição que é a base e o início da transformação do mundo inteiro. O resultado é um empobrecimento que deixa as pessoas somente com as suas tradições culturais e os seus sentimentos. Mas a adesão permanente a Cristo não se mantêm por sentimentos, mas, sim, pela compreensão e aceitação daquilo que Deus realizou por meio dele. E isto é a doutrina cristã.

Há quem aponte que o grande mal da Igreja Católica sul-americana é a presença da Teologia da Libertação. Em sua opinião, quais foram os fatores que propiciaram o estabelecimento e crescimento da Teologia da Libertação no Brasil?

Fiquei feliz ao ler que o novo prefeito da Congregação pela Vida Consagrada, um brasileiro por sinal, falou positivamente acerca da Teologia da Libertação numa entrevista nestes últimos tempos. Os fatores que propiciaram a teologia da libertação, como eu entendo, são basicamente dois: a miséria econômica do povo e a necessidade de uma expressão do Catolicismo mais acessível, mais real, para as pessoas de hoje. Assim como as pessoas devem ir ao encontro da sua fé pelo conhecimento da doutrina, assim a fé precisa ir ao encontro do povo – em espiritualidade, em maior envolvimento dos leigos, em formação de novas comunidades locais da fé.

Mas o senhor não acha que é preciso purificar a doutrina cristã das interpretações marxistas que são feitas pela Teologia da Libertação?

Não é tanto questão de identificar heresias ou interpretações excessivas para depois purificar a fé delas. Muito mais proveitoso é a apresentação profunda, bela e comovente do verdadeiro rosto do Catolicismo. Um livro como o segundo volume de “Jesus de Nazaré”, de Bento XVI, faz um bem imenso, colocando diante dos olhos, intelectos e corações dos fiéis o núcleo de nossa fé: o mistério pascal. Também temos que agradecer a grande intuição da Teologia da Libertação: que o trabalho para a verdadeira justiça, em todos os seus aspectos, faz parte significativa da tarefa da Igreja.

Em sua opinião, a Igreja Católica não se preocupava com a “justiça social” antes do surgimento da Teologia da Libertação?

Desde o tempo dos apóstolos, a Igreja se tem preocupado com aquilo que se chama hoje em dia “justiça social”. É só ler os Atos dos Apóstolos e o retrato da primitiva comunidade cristã em Jerusalém. Os dois pontos mais “modernos”, que, de fato, são uma atualização do ensinamento patrístico, são a ideia de que a partilha dos bens com os mais necessitados não é um ornamento da vida cristã, mas algo totalmente inseparável de um verdadeiro compromisso com Cristo – veja, por exemplo,os escritos de um João Crisóstomo – e os esforços para atender às necessidades dos desfavorecidos não devem limitar-se a gestos de indivíduos, mas são a responsabilidade da Igreja e da sociedade como um todo.

Dom Bernardo Bonowitz em um momento de meditação

Alguns teólogos, entre os quais o Papa Bento XVI, reprovam abertamente a interpretação marxista das Escrituras conforme realizada pela Teologia da Libertação. Segundo eles, isso transforma a Igreja em um instrumento de doutrinação política e ideológica, esvaziando-a de seu conteúdo e missão espiritual original. Diante disso, o senhor acredita que pode existir uma “boa” Teologia da Libertação?

Uma boa Teologia da Libertação tomaria como base a grande parábola do Juízo Final de Mateus 25. Lá, Cristo, vindo em sua glória como rei e juiz do universo, revela que ele estava presente em cada pessoa humana, como reza um dos prefácios para o Advento, e esperando ser atendido em suas necessidades por seus fiéis. Como diz Santo Agostinho no seu comentário sobre a primeira carta de João, é por nossa generosidade e dedicação aos irmãos que conseguimos dar algo a Deus em gratidão por tudo aquilo que recebemos dele, o que de outra forma não seria possível. Por outro lado, a idéia da construção de uma nova sociedade instaurada pelos homens e planejada exclusivamente para os homens, sem dependência da graça de Deus e sem intenção de render obediência e adoração a Ele através deste projeto, nem merece o título de uma “má Teologia da Libertação”. Simplesmente, não é teologia. O “logos” de uma tal ciência é outro. Nesta, o “theos”, o divino, foi eliminado.

“A idéia da construção de uma nova sociedade instaurada pelos homens e planejada exclusivamente para os homens, sem dependência da graça de Deus e sem intenção de render obediência e adoração a Ele através deste projeto, nem merece o título de uma “má Teologia da Libertação”. Simplesmente, não é teologia”

Gostaria de abordar agora alguns aspectos biográficos e relativos à vida e espiritualidade monástica. O senhor nasceu em uma família judaica e era, portanto, judeu. Sua decisão de ingressar na vida religiosa aconteceu ao mesmo tempo que sua conversão ao Cristianismo ou foi um processo posterior?

A minha conversão começou muito cedo, na infância, ao ouvir falar da pessoa de Jesus. Fui batizado aos 19 anos num mosteiro trapista nos EUA, e, junto com o batismo, nasceu o desejo de ingressar na vida monástica.

A vida em uma comunidade judaica é extremamente marcante. A literatura americana, por exemplo, está cheia de exemplos de judeus não-praticantes que, não obstante, vivem sob o peso do Judaísmo. Depois que se tornou cristão, o senhor deixou absolutamente de ser judeu ou sobrou algo do Judaísmo em sua personalidade?

Nunca deixei de ser judeu. Me considero judeu e católico. Aliás, acho que não é possível deixar o Judaísmo. Acredito que a minha maneira de pensar teologicamente, de ensinar e de pregar, junto com meu senso de humor, são todos indícios da “persistência” de Judaísmo em mim.

“Nunca deixei de ser judeu. Me considero judeu e católico. Acho que não é possível deixar o Judaísmo.”

Qual é o aspecto do Cristianismo ou da visão de mundo cristã mais difícil para um judeu conseguir aceitar?

São dois mundos bastante diferentes. Acho que a divindade de Cristo é a grande distinção. Para um cristão, a idéia de Deus sem Cristo é quase inimaginável. Para um judeu, é um grande “pulo” chegar a conhecer o profeta Jesus como o eterno Filho, como intrínseco à realidade de Deus.

O que o senhor acha que os cristãos podem aprender com os judeus e o que os judeus podem aprender com os cristãos?

Os cristãos podem aprender a mergulhar mais profundamente e constantemente na Bíblia e encontrar em sua fé o que é mais fundamental na compreensão de si mesmos. Os judeus podem aproveitar mais da riqueza da reflexão filosófica na Teologia e renovar a orientação para a vida eterna, para a vinda do Reino.

O senhor já declarou que desde criança a figura de Jesus Cristo lhe impressionava. De que forma a figura do Filho de Deus o impressionava naquela idade?

Na infância, duas coisas me impressionavam especialmente: a possibilidade de um Deus tão próximo, tão acessível, que habita em nossa carne; e uma pessoa que vem ao encontro de nossos anseios mais profundos, o mestre que nos ensina sabedoria, santidade e felicidade.

“A civilização ocidental, desde a antiguidade até o presente, é um dos grandes amores da minha vida. Então a destruição, mesmo que parcial, de nossa civilização só poderia ser para mim um tremendo pesadelo”

O senhor passou a juventude em um período (a segunda metade dos anos 60) de grande turbulência nos Estados Unidos, com a revolução sexual, o movimento hippie, a popularização das drogas e a disseminação, entre os jovens, de ideologias que pregavam a destruição da civilização ocidental. Como o senhor reagiu àqueles acontecimentos?

A civilização ocidental, desde a antiguidade até o presente, é um dos grandes amores da minha vida. Quando jovem, cheguei a tomar a decisão de que, caso eu me casasse, chamaria o meu primeiro filho de “Brahms”. Então a destruição, mesmo parcial, de nossa civilização, só poderia ser para mim um tremendo pesadelo. O que me faltava naquela época era uma clareza sobre a vivência dos valores morais, sobre a justa relação entre autonomia pessoal e responsabilidade à Lei de Deus, a um Deus que é Pessoa, fonte e medida de todos os valores. Este conhecimento só adquiri dentro da Igreja.

Quais foram os fatores decisivos em sua vida que contribuíram para que o senhor decidisse se converter ao Cristianismo?

Em primeiro lugar, penso que o meu amor pela literatura, música e arte da nossa tradição ocidental me colocou em contato constante com Jesus. Os romances de Dostoievski, a música de Bach, Handel e Mozart, e arte medieval e renascentista. Jesus está sempre presente na cultura ocidental. Meu pai sempre achava que a minha conversão foi uma resposta pessoal à revolução estudantil de 1968, que foi o ano de meu batismo, o que não deixa de ser uma idéia interessante.

“Meu pai sempre achou que a minha conversão foi uma resposta pessoal à revolução estudantil de 1968, que foi o ano de meu batismo, o que não deixa de ser uma idéia interessante”

Por que seu pai disse que sua conversão ao Catolicismo era uma resposta à revolução estudantil de 1968? E por que “isso não deixa de ser uma boa ideia”?

O meu pai considerava aquela revolução como um fenômeno que exigia uma resposta. Não era possível ficar intocado: as pessoas não podiam simplesmente prosseguir com a sua existência como antes. Para ele, o salto da fé e a adesão à maior Igreja do mundo constituíram a minha resposta pessoal. Digo que “isso não deixa de ser uma boa idéia”, porque, como monge, tenho aprendido que as nossas motivações levam décadas para serem purificadas. Um abade que conheço descreve a vida monástica como “uma lenta purificação de motivações”. Portanto, acredito que dentro da minha decisão de converter-me aos 19 anos havia dimensões psicológicas auto-centradas. Estas não invalidaram a minha decisão, e Deus soube tirar proveito delas. Da parte Dele, por outro lado, as motivações eram totalmente puras desde o início.

O escritor russo Fiódor Dostoiévski, uma das personalidades da cultura cristã que levaram Dom Bernardo ao Catolicismo

De que forma um escritor como Dostoievski, por exemplo, lhe abriu os olhos para a fé cristã?

Dostoievski era fascinado pela pessoa de Cristo e pela possibilidade de outras pessoas ficarem tão transformadas Nele a ponto de se tornarem “cristóphoroi”, ou seja, portadores de Cristo no e para o mundo. Os traços deste Cristo – deste “Cristo russo” poderíamos dizer – são o compromisso com a verdade, a humildade, a não-violência e a doação de si mesmo pela salvação de outros. Quando adolescente, lia o “Idiota”, de Dostoievski, que ele mesmo descreve como sua tentativa de “representar” Cristo num homem contemporâneo, pelo menos uma vez por ano. A cada leitura me sentia mais atraído a este ideal de transformação em Cristo, um ideal central à teologia de São Paulo e São João.             

Qual foi, ou ainda tem sido, o aspecto da vida monástica que foi mais difícil para o senhor conseguir aceitar e vivenciar?

O aspecto mais difícil para mim e para qualquer um é o caminho de auto-conhecimento, o caminho da humildade, onde eu descubro a minha pobreza pessoal e aprendo a confiar em Deus e não em mim mesmo.

O senhor certamente já conheceu muitos monges que abandonaram a vida religiosa e outros que persistiram por toda a vida. Considerando esta experiência, o senhor consegue apontar qual é a característica ou virtude mais necessária para aquele que quer viver a vida monástica?

Eu daria uma resposta “trinitária”. Quem quiser perseverar na vida monástica tem que apegar-se radicalmente à vontade do Pai, ao seguimento de Jesus e ao acolhimento das inspirações do Espírito Santo.

 Existem muitos livros de espiritualidade destinados aos leitores leigos que são inspirados na regra de São Bento e na vida monástica. Em sua opinião, o que as pessoas comuns podem aprender sobre o estilo de vida monástico e incorporar em suas vidas?

No centro da Regra está a visão da vida humana como uma viagem de volta para Deus, para recuperar a amizade e filiação com Ele e aprender de novo como servi-Lo. Por isto, Bento chama o mosteiro uma “escola do serviço do Senhor”. Tudo na Regra deriva desta decisão de conseguir de novo uma unidade amorosa com Deus. O que mais poderia ajudar a pessoa comum não é algo concreto na Regra, mas esta absoluta prioridade, em torno da qual toda a nossa vida deve se configurar.

 Muitas pessoas não compreendem o estilo de vida monástico. Alguns chegam a pensar que um monge não é útil para a humanidade. Que resposta o senhor daria às pessoas que pensam desta forma?

Acho que a categoria da “utilidade” não é a mais importante, não é a categoria orientadora. A nossa tarefa neste mundo é de aprender a cumprir os dois grandes mandamentos: o amor a Deus e, em seguida, o amor ao próximo. Uma pessoa que verdadeiramente ama a Deus de todo o coração será, por este amor, uma luz para o mundo.

O senhor é um monge beneditino. Em comparação com as outras ordens religiosas católicas, qual é a característica mais distintiva da regra e da espiritualidade beneditina?

No primeiro capítulo de sua Regra, São Bento diz que nós vivemos com três elementos fundamentais: um abade, uma regra e uma comunidade fraterna. Acho que a interação perpétua entre estes três elementos é a marca registrada de nossa espiritualidade.

São Bernardo de Claraval, um dos modelos de Dom Bernardo com relação à ação do monge no mundo

O senhor acredita que há um limite para o monge interferir na vida da sociedade? Quando é oportuno para um monge sair do seu “isolamento” e agir na sociedade ao seu redor?

Tomo como inspiração a atividade de um São Bernardo de Claraval (século XII), ou de um abade De Rancé (iniciador da reforma trapista no século XVII). Em uma época de fome, os dois realizaram uma grande obra caritativa, e São Bernardo saiu pessoalmente do mosteiro para distribuir os víveres dos monges para os mais necessitados.

Se o senhor fosse um dos monges que foram retratados no filme “Homens e Deuses”, o senhor teria ficado e enfrentado a situação ou teria ido embora?

Eu não consigo ler meu coração com tanta clareza. Gostaria de ter ficado, para continuar a servir a Jesus no mosteiro aonde Ele me chamou e também por causa de uma “aliança de amizade” com o povo local.

Uma última pergunta. Como o senhor imagina que será a Igreja Católica do terceiro milênio?

Estou imensamente agradecido pela Igreja Católica tal como ela é atualmente. Não há nada neste mundo comparável à realidade da nossa Igreja, presença de Jesus neste mundo. Não há nada comparável à nossa liturgia, à nossa tradição mística, mais ainda aos sacramentos e à Bíblia, à nossa tradição da santidade. São Bento diz que avançamos a Deus “per ducatum evangelii”, sob a guia do evangelho. Uma Igreja que encarna os evangelhos e os comentários feitos sobre eles pelos doutores e santos de nossa história, uma Igreja que entende, assume e comunica a salvação que vem a nós do Pai em Jesus Cristo – isto nos basta. Uma Igreja que nos prepara para a vida eterna.

Clique aqui para assistir ao trailer de “Homens e Deuses”.

About these ads

6 thoughts on “Um judeu no mundo católico: conversa com Dom Bernardo Bonowitz

  1. Marco disse:

    Inspiradora e enriquecedora entrevista! Parabéns a quem teve a ideia de postá-la na internet.

  2. Elizabeth Paz de Almeida disse:

    Como sempre, D. Bernardo luta pela transparência e coerência de sua caminhada espiritual com a espiritualidade beneditina e a teologia cristã mais assumida. O que
    ressalta de seu pensamento e o distingue,a meu ver, é a vontade de lucidez constante,
    ou seja, de atualização de sua mensagem face a um mundo conturbado e polêmico,
    sem confrontar-se com os valores permanentes da Igreja ou necessidade de ‘rever ‘ a
    a Palavra do Mestre. Consegue, enfim, dar testemunho inequívoco de harmonia ética, estética e intelectual com a espiritualidade que abraçou. Que Deus muito o proteja,
    D. Bernardo!!
    Elizabeth

  3. Washington Oliveira disse:

    Uma jornada de Fé.

  4. Alceu Amoroso Lima Filho disse:

    Dom Bernardo, meu amigo pessoal, demonstra uma profunda fé cristã e uma enorme adesão à Igreja Católica
    E através dessa opção de vida contemplativa, em termos muito simples declara sua sensibilidade à presença de Cristo entre nós
    Além disso, que é básico e muito importante, uma crença muito grande na valor do ecumenismo e nos homens de boa vontade que praticam outras religiões

    Alceu Amoroso Lima Filho

  5. Maria Suzana F. A. Macedo disse:

    Dom Bernardo expressou bem ao dizer que o ecumenismo é indispensável. Se todos os fiéis de todas as tradições religiosas tivessem a mesma clareza, o diálogo inter-religioso estaria mais presente e a paz, a nível mundial, já poderia estar sendo uma realidade.
    Excelente entrevista e profundamente inspiradora para uma reflexão pessoal também.

  6. marcobissoli disse:

    Fiquei absolutamente tocado pela entrevista de Dom Bernado. Estive no Mosteiro de Nossa Senhora do Novo Mundo e fuqie transfigurado pelo testemunho de fé e amor de seus homens. Dom Bernardo simboliza essa vida de oração, comprometimento, sabedoria, caridade e vivência fraterna. Não sei por que me lembrei do poeta da união dos “contrários”, que certa vez disse: “Jesus Cristo não esperou a maturidade para liquidar os sábios e doutores: fê-lo aos 12 anos”. Parabéns pela entrevista.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: