Russell Kirk e a filosofia conservadora da cultura: conversa com Alex Catharino

Entre dezembro de 2011 e dezembro de 2012, a editora paulistana É Realizações irá lançar pela primeira vez no Brasil quatro livros do filósofo americano Russell Kirk (1918-1994): “A Era de T. S. Eliot: A Imaginação Moral do Século XX” (com tradução de Márcia Xavier de Brito), “A Política da Prudência” (tradução de Gustavo Santos), “A Mentalidade Conservadora: De Edmund Burke a T. S. Eliot” (tradução de Eduardo Wolf) e “Edmund Burke: Redescobrindo um Gênio” (tradução de Márcia Xavier de Brito), segundo a ordem de lançamento prevista pela editora. A pedido da viúva do filósofo, Annette Kirk, a revisão técnica das edições nacionais ficou a cargo do historiador e pesquisador Alex Catharino, professor, vice-presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP) e editor da versão brasileira da revista de teologia e cultura “Communio“, que desde 2008 vem realizando pesquisas no Russell Kirk Center for Cultural Renewal (RKC), no estado natal de Kirk, Michigan (EUA). Catharino ficou responsável, também, pela escolha da ordem das obras a serem publicadas e, a pedido do editor da É Realizações, Edson Manoel de Oliveira Filho, escreveu os ensaios introdutórios de cada uma delas. Na entrevista a seguir, Catharino analisa minuciosamente o pensamento de Kirk, sua influência na tradição conservadora e na política americana, esmiúça os principais aspectos de sua obra e a relaciona com a realidade cultural brasileira. Não é nenhum exagero dizer que esta conversa é uma excelente introdução ao pensamento do homem que ajudou a colocar Ronald Reagan na presidência dos Estados Unidos.

UPDATE: Alex informa que os lançamentos do livro “A Era de T. S. Eliot”, com palestras de sua autoria e de Annette Kirk, serão no dia 8 de dezembro (quinta-feira), a partir das 19h no Espaço Cultural da É Realizações em São Paulo e dia 10 de dezembro (sábado) no mesmo horário na Livraria Cultura do São Conrado Fashion Mall no Rio de Janeiro.

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Provavelmente, “A Mentalidade Conservadora”, publicado originalmente em 1953, é o livro mais importante – ou, pelo menos, mais conhecido – de Kirk. Você poderia explicar quais foram os fatores que impulsionaram o livro?

Sem dúvida, “A Mentalidade Conservadora” é a obra mais conhecida de Russell Kirk, no entanto não a considero mais importante que os livros “A Era de T. S. Eliot” de 1971 e “As Raízes da Ordem Americana” de 1974. Creio que a verdadeira obra prima de Russell Kirk é o livro “A Era de T. S. Eliot”, visto que, ao utilizar como fio condutor a vida e o pensamento de T. S. Eliot, assim como o contexto histórico do período em que viveu o poeta, o livro consegue estruturar e condensar vários aspectos fundamentais do próprio pensamento kirkeano sobre natureza humana, cultura, religião, imaginação, história, educação, crítica literária, questões sociais, política e economia, assim como fazer uma leitura “danteana” da poesia do renomado autor. Já a grande notoriedade de “A Mentalidade Conservadora”, uma obra que também gosto muito, se deve ao fato dela ser considerada pela maioria dos analistas como o “gênesis” do pensamento conservador norte-americano por sistematizar e expor os princípios fundamentais do conservadorismo, apresentar a genealogia dessa corrente política na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, além de recuperar a dignidade da mesma junto à opinião pública. O livro tem como base as pesquisas realizadas pelo autor – sem a orientação de nenhum professor, diga-se de passagem -, para a obtenção do título de “Literatum Doctorem” pela University of St. Andrews, o grau mais elevado concedido por essa que é a mais antiga instituição de ensino superior da Escócia.

Qual foi, mais especificamente, a importância de “A Mentalidade Conservadora” para o conservadorismo americano?

O historiador americano George Nash, autor de “The Conservative Intellectual Movement in America Since 1945”

No livro “The Conservative Intellectual Movement in America: Since 1945” (ISI Books, 1996), o historiador George H. Nash demonstra que o movimento conservador norte-americano se estrutura, principalmente, a partir da coalizão de três grupos distintos, cada um deles guiado por uma obra de referência. O primeiro é o grupo dos libertários, cujo livro “O Caminho da Servidão”, de Friedrich August von Hayek, publicado em 1944, demonstra como o modelo econômico intervencionista adotado pelas democracias ocidentais conduzirá necessariamente à redução e até mesmo à perda das liberdades individuais e políticas. Na segunda vertente encontramos o grupo dos anticomunistas, guiados pela denúncia feita em 1952 pelo ex-editor do “Time” e ex-espião soviético, Whittaker Chambers, na obra “Witness”, em que descreve como agentes comunistas estavam se infiltrando em vários escalões da sociedade norte-americana. O terceiro e, provavelmente, mais importante desses grupos é o dos chamados tradicionalistas, que, em torno da análise acadêmica apresentada em “A Mentalidade Conservadora”, tentaram recuperar os princípios tradicionais da experiência cultural e política britânica e norte-americana como meio de resistência aos avanços revolucionários promovidos por diferentes modelos ideológicos.

Lee Edwards explica que a vitória de Ronald Reagan para a presidência dos Estados Unidos é fruto de um processo iniciado com a publicação de ‘A Mentalidade Conservadora’, o que transforma Kirk no principal teórico do movimento

Que impacto concreto exerceu “A Mentalidade Conservadora” na vida política americana? 

Ronald Reagan, eleito presidente dos Estados Unidos em 1965 graças ao apoio intelectual originado em “A Mentalidade Conservadora”

Tanto Russell Kirk, no livro “A Política da Prudência”, quanto George H. Nash e Lee Edwards consideram a vitória eleitoral de Ronald Reagan para a presidência dos Estados Unidos um acontecimento decisivo para o movimento conservador. Em “The Conservative Revolution: The Movement That Remade America” (Free Press, 1999), Lee Edwards explica que tal vitória política é fruto de um processo iniciado com a publicação de “A Mentalidade Conservadora”, o que transforma Kirk no principal teórico do movimento. Antes da publicação de “A Mentalidade Conservadora”, as forças que se opunham à agenda liberal do New Deal, cujas políticas econômicas e sociais eram altamente intervencionistas, e ao avanço revolucionário das ideologias esquerdistas mais radicais, estavam dispersas. O livro de Kirk serviu como um grande catalizador para as políticas de coalizão em torno de causas específicas, uma das características distintivas do movimento conservador norte-americano, ressaltando a importância da preservação da tradição.

Há quem entenda “A Mentalidade Conservadora” como um tipo de “manual” de direita. Você acredita que a obra pode ser resumida assim sem maiores prejuízos?

Creio que uma leitura voltada apenas para os aspectos políticos do livro perverte o projeto original do autor. O intento de Kirk, pelo menos nesta obra, não era criar um manual para a “direita” norte-americana, uma espécie de guia ideológico. A obra é, acima de tudo, um profundo estudo de história das ideias, que apresenta o desenvolvimento do conservadorismo britânico e norte-americano, tanto cultural como político, a partir do pensamento conservador de Edmund Burke. É por isso que o livro se dedica de forma impressionante ao legado de literatos como Sir Walter Scott, Samuel Taylor Coleridge, James Fenimore Cooper, Nathaniel Hawthorne, George Gissing, G. K. Cherterton, T. S. Eliot, C. S. Lewis e Robert Frost.

“Os adversários de Kirk eram as modernas ideologias secularistas, tanto de esquerda quanto de direita, que, ao propagarem concepções errôneas sobre a natureza da pessoa e da sociedade, criavam – e ainda criam – o que ele denominou de “desagregação normativa”, que passa a perverter a ordem interna da alma e a ordem externa da república”

Quais foram os maiores contributos de Kirk para a tradição conservadora americana, da qual ele é considerado um dos seus grandes teorizadores?

Não é exagero afirmar que Russell Kirk está para o pensamento conservador norte-americano como Edmund Burke para o conservadorismo britânico. No entanto, não devemos reduzir o pensamento kirkeano apenas aos aspectos políticos. A preocupação principal da obra de Kirk era cultural. No plano político, os adversários de Kirk eram as modernas ideologias secularistas, tanto de esquerda quanto de direita, que, ao propagarem concepções errôneas sobre a natureza da pessoa e da sociedade, criavam – e ainda criam – o que ele denominou de “desagregação normativa”, que passa a perverter a ordem interna da alma e a ordem externa da república. O remédio para tais males, segundo Kirk, se encontra na redescoberta das antigas verdades propagadas pela “imaginação moral” e pela educação liberal. A leitura dos clássicos – uma insistência constante do autor – permite romper os grilhões do cativeiro do tempo e do espaço e nos permite ter uma visão mais ampla, nos permitindo entender o que é ser plenamente humano e nos capacitando como transmissores, para as gerações vindouras, do patrimônio comum de nossa cultura. É nesse sentido que Russell Kirk recupera as verdades legadas por importantes autores da tradição conservadora num erudito trabalho acadêmico que não deixa de ter beleza estilística, rigor lógico e clareza na exposição das ideias. Os seis cânones do pensamento conservador apresentados em “A Mentalidade Conservadora” são uma síntese dos princípios fundamentais para a manutenção da vida em sociedade cuja base está nas experiências oriundas do desenvolvimento orgânico de diferentes gerações, algo bem diferente das prescrições ideológicas de alguns pensadores modernos.

De que forma o pensamento de Kirk dialogou com as bases precedentes e fundadoras da sociedade americana?

Antes da publicação de “A Mentalidade Conservadora”, havia uma hegemonia da chamada imaginação liberal, tal como advogada por Lionel Trilling. Havia duas posições possíveis: na primeira a cultura norte-americana era tida como progressista, no sentido de estar pautada nos ideais do utilitarismo liberal tal como defendia, na época, a maioria dos membros do Partido Republicano, e na segunda tal cultura política era tida como um tipo de social democracia, mentalidade dominante no Partido Democrata, que se tornara a orientação política do país, principalmente, a partir das administrações presidenciais de Woodrow Wilson e de Franklin Delano Roosevelt. Russell Kirk rompe tais visões estereotipadas e recupera a tradição conservadora nos Estados Unidos, ao ressaltar a influência do pensamento de Edmund Burke sobre os “Fouding Fathers” e demonstrar que a sociedade norte-americana, como herdeira da civilização judaico-cristã europeia, sempre teve importantes pensadores e estadistas comprometidos com a preservação da liberdade ordenada, tal como se verifica nos escritos e na atuação pública de John Adams, John Randolph of Roanoke, John C. Calhoun, Orestes Brownson e Henry Adams, dentre outros.

O filósofo britânico Roger Scruton, um dos conservadores ingleses da segunda metade do Séc. XX que mais se aproximam das concepções kirkeanas de conservadorismo

Kirk é um herdeiro do conservadorismo britânico, mas tornou-se um dos pilares do conservadorismo americano. Em sua  opinião, em que sentido o conservadorismo britânico se diferencia do americano hoje e na época de Kirk? 

Há uma grande diferença entre o conservadorismo britânico no final do século XVIII, época de Edmund Burke e de Samuel Johnson, e a forma assumida pela corrente intelectual do final do século XIX e início do século XX. Um exemplo dessa diferença é expresso por G. K. Chesterton quando afirma que “O mundo moderno se divide em conservadores e progressistas. O negócio dos progressistas é continuar a cometer erros. O negócio dos conservadores é evitar que os erros sejam corrigidos”. Num ensaio de 1929, T. S. Eliot fez uma crítica ao Partido Conservador britânico afirmando que este “desfruta de algo que nenhum outro partido político atual possui, um completo vácuo mental: uma ausência que pode ser preenchida com qualquer coisa, até mesmo com algo de valor”. Anos depois, numa carta para Eliot, Kirk citou a definição do escritor Ambrose Bierce, segundo a qual o conservador é o “estadista enamorado pelos males que existem, bem diferente do liberal, que deseja substituí-los por outros”. Acredito que a grande mudança do pensamento conservador britânico entre a época de Burke e Johnson e o período de Chesterton e Eliot se deve ao fato da politica inglesa na segunda metade do século XIX e no início do século XX ter sido profundamente influenciada pelas ideias utilitaristas e pelo movimento fabiano. A polarização da política britânica entre as duas posturas fez com que os conservadores ingleses, para opor ao socialismo moderado dos fabianos, fossem, gradativamente, adotando o racionalismo dos utilitaristas, tal como podemos notar, por exemplo, nas reflexões do filósofo Michael Oakeshott, um contemporâneo de Russell Kirk, que escreveu uma elogiosa resenha sobre “A Mentalidade Conservadora”, mas cuja obra carece de uma maior abertura à questão da imaginação. De certa forma, os escritores conservadores ingleses na segunda metade do século XX que se aproximam mais das concepções kirkeanas de conservadorismo foram o ensaísta e satirista Malcolm Muggeridge e o filósofo Roger Scruton, ambos amigos de Kirk.

“A riqueza intelectual, voltando-se mais para a cultura que para a política, explica o porquê de o movimento conservador norte-americano ser uma importante força na sociedade dos Estados Unidos, ao passo que na Grã-Bretanha não encontramos nada similar”

E como você situa o moderno pensamento conservador americano dentro desta corrente de mudanças e adaptações?

O moderno conservadorismo norte-americano no período posterior à Segunda Guerra Mundial assumiu um caráter mais amplo que o professado pelos ingleses na mesma época, além de congregar um número maior de intelectuais, tal como podemos verificar nos escritos de Peter Viereck, Donald Davidson, Richard Weaver, Eric Voegelin, Russell Kirk, Robert Nisbet e de tantos outros. A riqueza intelectual, voltando-se mais para a cultura que para a política, explica o porquê de o movimento conservador norte-americano ser uma importante força na sociedade dos Estados Unidos, ao passo que na Grã-Bretanha não encontramos nada similar. Acredito que o majoritário laicismo britânico, distinto da característica base cristã da sociedade norte-americana, é um fator que, também, devemos levar em consideração na tentativa de melhor entender tais diferenças.

Você acredita que o estudo de Edmund Burke, que foi um dos objetos de pesquisa mais importantes de Kirk, é fundamental para compreender a obra deste? 

O pensamento de Edmund Burke é uma das bases que sustenta a obra de Kirk. Ao lado dos estudos do padre Francis Canavan S.J. e do professor Peter J. Stanlis, os escritos de Russell Kirk foram fundamentais para o renascimento na segunda metade do século XX, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, das pesquisas sobre a obra de Edmund Burke. Nesse sentido, o entendimento de várias concepções burkeanas é imprescindível para um correto entendimento do conservadorismo kirkeano. Os livros “A Mentalidade Conservadora” e “Edmund Burke: Redescobrindo um Gênio”, ambos escritos por Kirk, são excelentes introduções ao pensamento de Burke. Mas não podemos reduzir os escritos de Russell Kirk aos fundamentos burkeanos que estruturaram sua produção intelectual. O pensamento kirkeano é extremamente complexo em diferentes aspetos e não pode ser facilmente reduzido aos esquemas ideológicos com os quais a mente moderna está acostumada. Um entendimento mais amplo e proveitoso do conservadorismo kirkeano necessita não apenas das obras de Edmund Burke, mas, também, do modo como Kirk entendeu inúmeras concepções de escritores como o cardeal John Henry Newman, Alexis de Tocqueville, Paul Elmer More, Irving Babbitt, Christopher Dawson, Eric Voegelin e, sobretudo, T. S. Eliot. A leitura do livro “A Era de T. S. Eliot”, publicado em português pela É Realizações, numa excelente tradução crítica feita por Márcia Xavier de Brito, é o melhor ponto de partida para uma compreensão mais ampla do pensamento de Russell Kirk.

“Na concepção kirkeana, a imaginação moral é a capacidade distintamente humana de conceber a pessoa como um ser moral, e vem a ser o próprio processo pelo qual o eu cria metáforas a partir das imagens captadas pelos sentidos e guardadas na mente, empregadas para descobrir e julgar correspondências morais na experiência”

Um dos conceitos centrais de Kirk, retirado de Burke, é a “imaginação moral”. Qual é a importância deste conceito para entender a cultura e mentalidade de um povo?

O termo “imaginação moral” foi apresentado originalmente por Edmund Burke na obra “Reflexões sobre a Revolução em França” como uma metáfora para descrever a maneira como os revolucionários franceses, pautados em ideias abstratas, estavam promovendo a destruição dos costumes civilizatórios tradicionais que durante gerações foram sustentados pelo espírito religioso e pelo senso de cavalheirismo. A expressão tomou dimensões mais amplas nas reflexões de Russell Kirk, que desenvolveu um novo conceito ao relacionar o “insight” burkeano com as ideias de “sentido ilativo” do cardeal John Henry Newman, de “ética dos contos de fadas” de G. K. Chesterton, de “imaginação idílica” de Irving Babbitt e de “imaginação diabólica” de T. S. Eliot. Na concepção kirkeana a imaginação moral é a capacidade distintamente humana de conceber a pessoa como um ser moral, e vem a ser o próprio processo pelo qual o eu cria metáforas a partir das imagens captadas pelos sentidos e guardadas na mente, empregadas para descobrir e julgar correspondências morais na experiência. Em linhas gerais o conceito kirkeano de imaginação moral se assemelha à noção de “Tao” descrita na obra “A Abolição do Homem”, de C. S. Lewis, ou seja, os princípios expressos pela Lei Natural, denominados também como moral tradicional, primeiros princípios da razão prática ou primeiros lugares-comuns. A temática da imaginação perpassa a vasta produção intelectual de Russell Kirk, que na autobiografia “The Sword of Imagination”, publicada postumamente em 1995, afirmou: “o mundo é governado, em qualquer época, não pela racionalidade, mas pela fé: pelo amor, lealdade e imaginação”. A correta compreensão das noções kirkeana de imaginação é a chave que torna possível entender o seu pensamento.

Quais foram, para Kirk, os grandes modelos da imaginação moral?

O poeta T.S. Eliot, um dos grandes objetos de estudo de Kirk e pedra fundamental de “A Era de T.S. Eliot”, primeiro livro do pensador americano a sair no Brasil, em dezembro

Ele via como modelos de imaginação moral os contos de fada dos irmãos Grimm e de Hans Cristopher Andersen, as estórias de Sir Walter Scott e Nathaniel Hawthorne, a fantasia mitopoética de J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis, os poemas e as peças de T. S. Eliot, e os poemas de Robert Frost e William Faulkner, assim como as obras clássicas de Sófocles, Aristófanes, Virgílio, Dante Alighieri, Geoffrey Chaucer, Miguel de Cervantes, William Shakespeare, John Milton e tantos outros poetas, dramaturgos e romancistas em diferentes tradições culturais. Outras fontes fundamentais para alimentarmos a imaginação moral das gerações vindouras são as narrativas históricas de Heródoto, Tucídides, Políbio, Tito Lívio e Tácito, assim como os escritos filosóficos e teológicos de Platão, Aristóteles, Cícero, Sêneca, São Paulo, Marco Aurélio e Santo Agostinho.

“Encontramos, no Brasil, uma separação entre os princípios cristãos professados por uma parcela da população e a produção das elites literárias, mais progressistas. O cultivo das letras, em grande parte, se tornou algo elitista, separado do imaginário mais conservador professado pelo homem comum”

Você acredita que alguns homens de letras no Brasil promoveram a imaginação moral no sentido kirkeano?

A imaginação moral é inerente à natureza humana. Ao acreditarmos na visão católica, podemos afirmar que o mal não existe por si mesmo, mas é uma ausência do bem. Da mesma forma, podemos encontrar reflexos da imaginação moral, mesmo em obras marcadas principalmente pelas formas corrompidas de imaginação, a “imaginação idílica” e a “imaginação diabólica”. Infelizmente, em nosso país não temos um grande comprometimento com o estudo dos clássicos e não há uma tradição literária voltada para o público infantil. A literatura brasileira está muito ligada à forma de imaginação idílica propagada pelo romantismo ou pelo realismo do movimento modernista, que, algumas vezes, abre espaço para as imaginações idílica e demoníaca. Nesse sentido, encontramos uma separação entre os princípios cristãos professados por uma parcela da população e a produção das elites literárias, mais progressistas. O cultivo das letras, em grande parte, se tornou algo elitista, separado do imaginário mais conservador professado pelo homem comum. Tal desvio na literatura deixa reflexos em quase toda a produção dos homens de letras nas demais áreas das chamadas humanidades. De certa forma, os homens de letras brasileiros que possuem um maior senso de imaginação moral embasam suas visões, principalmente, em autores norte-americanos e europeus. Todavia, ressalto a importância dos intelectuais se voltarem ao mesmo tempo tanto para os clássicos universais quanto para algumas das obras nacionais que possam explicar as verdadeiras bases de nossa cultura luso-brasileira, como os trabalhos de Gilberto Freyre, assim como para as narrativas de Lima Barreto e Nelson Rodrigues ou os poemas de Cecilia Meireles, Manuel Bandeira, Augusto Frederico Schmidt, Bruno Tolentino e Ivan Junqueira, dentre outros expoentes literários nacionais.

Nelson Rodrigues, um autor que se aproxima por vias tortuosas ao conceito de imaginação moral de Kirk

Em que sentido um autor como Nelson Rodrigues expressa o conceito de imaginação moral?

O caso específico de incluir Nelson Rodrigues nessa lista, admito, nem sempre é unânime e recordo a opinião de meu amigo Renato Moraes a respeito desse autor, ao apresentar as mesmas ressalvas que T. S. Eliot fez em relação aos escritos de Flannery O’Connor. Tanto o literato brasileiro quanto a escritora norte-americana se utilizam de incidentes e acontecimentos grotescos para demonstrar a tragédia das pessoas que abandonam as normas permanentes da moral cristã. No entanto, há um enorme risco nessa forma de denunciar os erros de nossa época, pois os receptores de tais mensagens moralizantes podem assumir como valores os vícios criticados pelos autores, transformando assim uma obra pautada na imaginação moral num meio de propagação da imaginação diabólica. De uma controversa obra de T. S. Eliot, Russell Kirk retirou o termo “imaginação diabólica” para definir o imaginário corrompido. Tal corrupção se dá pela perda do conceito de pecado e pela admissão da natureza humana como algo infinitamente maleável e mutável, assim o sujeito passa a entender as normas morais como valores relativos às preferências individuais subjetivas ou à transitoriedade dos diferentes contextos culturais, e assume a defesa da abolição de qualquer norma objetiva.

Você comentou da ausência de autores infantis com imaginação moral no Brasil. Monteiro Lobato não se encaixa neste conceito?

Monteiro Lobato é outro exemplo que ilustra a dificuldade de se despertar a imaginação moral entre os homens de letras no Brasil. O principal autor de obras infantis em nosso país foi, sem dúvida, um escritor brilhante cuja obra formou o caráter de gerações de brasileiros. No entanto, os escritos infantis de Monteiro Lobato são marcados por ideias cientificistas na linha de H. G. Wells e pelo romantismo rousseauniano típico da literatura brasileira, o que o torna um difusor da chamada imaginação idílica. Com base em Irving Babbit, Kirk define a imaginação idílica como um tipo anárquico de imaginação que, ao buscar a emancipação dos constrangimentos convencionais, se torna fantástica, isenta de restrições, primitivista, naturalista e utópica, numa total rejeição e revolta contra velhos dogmas, constrangimentos morais convencionais e costumes tradicionais. Notamos tais aspectos em muitas estórias de Monteiro Lobato, fator que talvez explique a rejeição e condenação de seus escritos por uma parcela significativa da hierarquia e da intelectualidade católica brasileira no começo do século XX.

“Em termos políticos, a maior lição que os conservadores brasileiros podem receber da leitura de Russell Kirk é a rejeição das concepções ideológicas simplificadoras da realidade”

Qual aspecto da obra de Kirk você acredita que mais está ausente da tradição política e brasileira em geral e que, se fosse adotado, teria efeitos positivos sobre ela?

Em termos políticos a maior lição que os conservadores brasileiros podem receber da leitura de Russell Kirk é a rejeição das concepções ideológicas simplificadoras da realidade. No entanto, acho que, acima de tudo, é necessário superar a preocupação excessiva com as questões políticas e abrir nosso campo de visão para horizontes mais amplos. Foi para evitar o vício do ativismo político, inerente a um número significativo de conservadores brasileiros, que Márcia Xavier de Brito e eu sugerimos ao Edson Manoel de Oliveira Filho [editor da É Realizações] que iniciasse a publicação das obras de Kirk em português com o livro “A Era de T. S. Eliot”, e não com “A Mentalidade Conservadora”, evitando assim que as contribuições intelectuais kirkeanas fossem tomadas como um dogma ideológico capaz de fundamentar apenas o ativismo político dos conservadores brasileiros. O grande mal de uma parcela significativa dos conservadores brasileiros é que na luta contra o racionalismo construtivista das esquerdas ou contra o relativismo dos pós-modernos, a maioria acaba assumindo uma postura ideológica dogmática e reacionária, deixando-se guiar pelos transitórios profetas da moda. O paradoxal nesse aspecto é ver algumas pessoas tentando conservar princípios inexistentes na cultura brasileira, assumindo, assim, uma postura revolucionária, e, portanto, idílica, em nome de um conservadorismo fictício.

Marcia Xavier de Brito (tradutora), Alex Catharino, Annette Kirk (viúva de Russell Kirk) e o Pe. Ian Boyd, amigo e pesquisador do filósofo, visitam o túmulo de Kirk no cemitério St. Michael, em Michigan

Mas a dimensão política da existência também é um fato de importância. Neste sentido, como o conservadorismo brasileiro pode se beneficiar da obra de Kirk?

Devemos ter em mente que, acima de tudo, o conservadorismo, tal como proposto por Russell Kirk, é uma defesa das tradições culturais da sociedade norte-americana, num plano particular, e da civilização ocidental, num espectro mais amplo, contra os desvios ideológicos da mentalidade moderna. No caso brasileiro, um conservador deverá fazer quatro perguntas básicas, a saber: 1ª) “Quais são as tradições fundamentais de nossa sociedade?”, 2ª) “Quais são os princípios e instituições que devemos conservar?”; 3ª) “Até que ponto será possível adotar modelos culturais e políticos estranhos ao nosso desenvolvimento histórico particular?”, 4ª) “Quais são os aspectos específicos de nossa cultura que precisaremos abandonar para nos adequarmos aos princípios universais da civilização judaico-cristã da qual fazemos parte?”. Não tenho respostas definitivas para essas questões. Todavia, creio que os conservadores brasileiros deverão se voltar de forma mais sistemática para a busca de tais respostas. Acredito que o passo inicial deva estar num melhor entendimento das bases culturais de nosso país. A compreensão das heranças portuguesa e espanhola, de forma particular, e européia católica de modo mais amplo, é fundamental na tentativa de responder as quatro perguntas que formulei, visto que não podemos ser conservadores importando de forma acrítica a cultura anglo-saxônica. Uma melhor compreensão de nossas tradições históricas possibilitará a construção de elos entre as particularidades da realidade brasileira e os princípios universais conservadores advogados por Russell Kirk e outros pensadores conservadores estrangeiros, que em última instância são pautados nas bases comuns que herdamos da civilização ocidental, constituída pela junção dos legados greco-romano e judaico-cristão.

“A cultura brasileira está muito associada aos erros do patrimonialismo ibérico, do cientificismo herdado do pensamento positivista e do intervencionismo econômico defendido tanto por keynesianos quanto por marxistas, criando, assim, uma forma de religião civil do Estado que devemos buscar superar”

Como deveria agir o conservador brasileiro de acordo com o pensamento kirkeano?

O conservador, tal como nos ensinou Russell Kirk, não pode ser um formulador de ideias abstratas, mas um prudente observador das realidades moral, cultural, política e econômica que o cerca, buscando eliminar, por reformas gradativas, os erros legados pelo passado, e preservando os aspectos positivos da tradição. A cultura brasileira está muito associada aos erros do patrimonialismo ibérico, do cientificismo herdado do pensamento positivista e do intervencionismo econômico defendido tanto por keynesianos quanto por marxistas, criando, assim, uma forma de religião civil do Estado que devemos buscar superar. No plano econômico o conservador deverá, na maioria dos casos, assumir a defesa do livre mercado feita pelos libertários. Todavia, temos que ser intransigentes na luta pela preservação de certos princípios inalienáveis, herdados de nossa tradição católica, dentre os quais se destacam o reconhecimento da religião como principal fundamento da moral e da cultura, a defesa da vida humana desde a concepção até a morte natural da pessoa, a importância das liberdades individuais como pré-condição da vida moral e principal motor do desenvolvimento social, bem como o respeito aos direitos de propriedade, tanto material quanto intelectual.

Alex Catharino: revisor técnico, pesquisador, ensaísta e colaborador do projeto de edição das obras de Kirk no Brasil


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5 pensamentos sobre “Russell Kirk e a filosofia conservadora da cultura: conversa com Alex Catharino

  1. Edenilson Mikuska disse:

    Muito bom. Aprendi muito.

  2. […] RUSSELL KIRK E A FILOSOFIA CONSERVADORA DA CULTURA: CONVERSA COM ALEX CATHARINO Por francisco razzo, 4 de dezembro de 2011 11:35 // Fonte: Diálogos Exemplares […]

  3. […] Russell kirk e a filosofia conservadora da cultura: conversa com Alex Catharino, Diálogos Exemplares: https://dialogosexemplares.wordpress.com/2011/11/29/entrevista-com-alex-catharino/ […]

  4. […] Russell Kirk e a filosofia conservadora da cultura: conversa com Alex Catharino, Diálogos Exemplares: https://dialogosexemplares.wordpress.com/2011/11/29/entrevista-com-alex-catharino/ […]

  5. […] Russell Kirk e a Filosofia Conservadora da Cultura: Conversa com Alex Catharino – Diálogo Exemplares: https://dialogosexemplares.wordpress.com/2011/11/29/entrevista-com-alex-catharino/ […]

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