Primeiro a rua, depois o resto: conversa com Nuno Costa Santos

Figura de múltiplos talentos, Nuno Costa Santos criou e atuou no programa de TV "Melancómico", que em fins de 2011, após ser encerrado, retornou em livro. Foto de João Antônio

Se não é 100% seguro – e nem, vá lá, muito educado – dizer que Nuno Costa Santos é a figura mais interessante do cenário cultural português atual, certamente é possível dizer que ele é uma das suas personalidades mais criativas. Em um meio repleto de gênios e semi-gênios, este português de Açores se diferencia por possuir uma vocação rara entre a maior parte de seus pares – é humorista – e por transitar entre diversas áreas com talento constante. Como um Antônio Maria ou um Millôr Fernandes contemporâneo, Nuno Costa Santos escreve, roteiriza, faz crítica musical, atua, dirige, assina uma coluna na revista “LER” e realiza programas radiofônicos de música alternativa. Talvez nenhum outro português tenha trabalhado tanto – e tão bem – desde os tempos áureos de Miguel Esteves Cardoso. Humorista de talento fino e gags elegantes, Nuno atingiu a sua forma perfeita do cômico no programa televisivo “Melancómico”, do qual foi criador e personagem principal. Exibido ao mesmo tempo pelo canal português “Q” e na Internet, o esquete foi encerrado em julho de 2011 e no final do ano retornou em livro. “Melancómico – O livro” (Atelier Escritório Editora), reúne aforismos, mais literários que sentenciosos, sobre a vidinha simples, delicada e algo poética de um cidadão moderno comum, perdido entre o sentido da vida e as ofertas do supermercado, entre o espanto existencial e a asma. Na entrevista a seguir, Nuno Costa Santos, que já foi chamado de “o Woody Allen luso” pelo intelectual João Pereira Coutinho, repassa algumas das questões que envolvem sua vida e seu trabalho.

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Vamos começar falando de seu último livro, “Melancómico – O livro”. Embora tenha escrito contos, peças e roteiros, você é um cultor do aforismo. Não só escreveu e publicou livros de frases como organizou um volume com ditos de vários autores. E este seu novo livro também é de aforismos. Qual é, em sua opinião, a vantagem do aforismo e por que é uma forma que lhe agrada?

O aforismo é um shot de conhecimento. Agrada-me antes de mais nada pelo seu sentido de economia verbal, algo que persigo como escriba e como leitor. Sou por coisas curtas e essenciais. Se os filmes são demasiado longos começo logo a mexer-me na cadeira. Aprecio particulamente o aforismo que não se leva demasiado a sério, aquele que tem noção dos seus limites, que não tem medo de ficar sem tapete. Os outros, em geral, parecem-me demasiado sentenciosos e, por isso, irritantes.

O que é que faz de um aforismo um bom aforismo?

Um bom aforismo é aquele que é capaz de sintetizar numa linha aquilo que uma dúzia de bons romances perseguem.

“Tendo a recusar uma visão canônica da arte e do pensamento. Sou um bicho de afetos, escolhas e apetites”

Capa de "Melancómico - O livro", segunda reunião de frases do personagem criado e interpretado por Nuno no programa de mesmo nome

Quais são – ou foram –, para você, os maiores frasistas da história?

Tendo a recusar uma visão canônica da arte e do pensamento. Sou um bicho de afetos, escolhas e apetites. As minhas escolhas cruzam pensadores mais enfáticos com subversivos profissionais. Posso falar de Fernando Pessoa, por exemplo, mas isso é uma banalidade. Mas também de Agustina Bessa-Luís. Ou de Nelson Rodrigues. Ou de Ambrose Bierce. Ou de Millôr Fernandes. Ou de Karl Kraus. Mas amanhã, ao café da manhã, um filho meu pode dizer uma frase mais surpreendente do que os melhores pensamentos dessa gente toda.

Você tem vontade de se aventurar por uma forma literária de fôlego maior, como o romance? Que assunto gostaria de abordar em um grande romance? 

Tenho, sim. Às vezes tendo a satirizar essa tendência que todo o jovem escritor, o que já não sou, tem para se fixar no gênero romance, como se o romance fosse uma espécie de casamento da literatura, com espaço para todas as legitimações sociais e do meio literário. Mas quem desdenha quer comprar e eu acho que já comprei essa ideia de começar a escrever narrativas mais longas. Acho que estou mais preparado para isso, agora que respiro melhor – a meditação ajuda. O tema? Tenho alguns na carteira. Um deles tem a ver com a compaixão. Outro com uma história passada numa ilha na qual cresci e que considero ser a minha terra: a ilha de São Miguel, nos Açores. É uma história que tem a ver com o universo da droga e da toxicodependência. Se calhar também meto aí alguma compaixão (ri).

“Acredito na ideia de que é preciso conhecer bem a rua em que se vive. Primeiro a rua, depois o resto”

Em alguns de seus aforismos, o enfoque é a “vidinha”. Hoje em dia, parece que é uma obrigação viver a vida, ter muitas mulheres, fazer muitas viagens, tomar drogas, fazer muito dinheiro, esgotar as possibilidades. É uma ideia que lhe agrada? Gostaria de ter um “vidão”, com viagens, aventuras amorosas, perigos e descobertas incessantes?

Eu gosto de descobrir. Acho é que não é preciso apanhar um avião ou ter uma vida exuberantemente aventureira para isso acontecer. Acredito na ideia de que é preciso conhecer bem a rua em que se vive. Primeiro a rua, depois o resto. Esse fascínio com a vidinha acho que tem a ver com o fascínio com o humano, com a ideia que o humano oscila entre as grandes questões – o amor, a morte e a ida ao supermercado –, embora haja quem na arte só sublinhe o enfático. Um escritor que muito admiro, o Manuel António Pina, disse recentemente uma frase que considero certeira: “Das questões mais comezinhas do real quotidiano emergem ou estão lá latentes todos os problemas filosóficos”.

Acredita que é possível viver a vidinha com uma dose mínima de prazer, talvez até mesmo de poesia?

Claro que sim! Há aqui um dado importante: o entendimento que lanço no “Melancómico” ou nalgumas das frases do Melancómico não coincide totalmente com a visão do mundo de pessoa que sou. Se quiseres, sou algumas vezes melancômico – não seremos todos um pouco? – mas não sou o Melancómico. Respondendo diretamente à pergunta: posso dizer que muitas vezes tiro prazer da própria vidinha. Ir às mercearias do meu bairro enche-me muitas vezes de prazer e de poesia. Encontro poesia ao ver um executivo na sua vidinha também, um executivo de sacos de plástico na mão. Isso me comove. E a comoção para mim é um prazer, não um fardo.

 “A comoção, para mim, é um prazer, não um fardo”

O quanto o personagem Melancómico é inspirado em você?

Costumo praticar e consumir um humor melancómico, a pequena tragédia risível atrai-me, mas não se julgue que ando todo o dia no bairro com os meus sacos de plástico e que a minha vida sexual é nula (risos, vários). Sou uma pessoa muito familiar, aqui em Lisboa com uma namorada e com dois filhotes que muito amo e que me completam. Venho dos Açores, onde tenho os meus queridos pais e irmã. Não sei se o “Melancômico” não será uma forma de ficcionar a forma inquietante, pelo menos como a sinto, como se vive a solidão nas grandes cidades. O bairro é uma forma de aconchego.

Nuno e o primeiro volume de aforismos do Melancómico, "Melancómico - Aforismos de Pastelaria"

Diz a velha e conhecida lenda que era possível, para os habitantes de Königsberg, ajustar os relógios de acordo com a rotina de Kant. Você valoriza a rotina? Prefere ter uma vida maximamente ordenada ou se permite algumas loucurinhas?

Sinto-me seguro com uma rotina. Por exemplo, hoje gosto muito de acordar bem cedo, embora nem sempre o consiga. Com uma rotina que me permita ser melhor pessoa: no trabalho e na atenção aos outros. Como diz a Dona Bina [personagem fictícia do universo “Melancómico”]: “Passei demasiado tempo a ser jovem”. E aqui “jovem” entenda-se desorganizado, caótico, inconsequente. Continuo inconseqüente, mas tento todos os dias ordenar um pouco essa inconsequência. Mas também gosto de algumas fugas. No meu trabalho oscilo entre um polo mais monástico e outro mais  mundano. Preciso dos dois. De escrever durante horas numa biblioteca e de estar em gravações com uma equipe bem diversa, como aconteceu recentemente quando estive nas ilhas dos Açores, em São Miguel, a gravar o filme “Discos Perdidos – A Adolescência Não se Manda Vir Por Email”, sobre o gesto de ir à minha terra saber como é que está tudo aquilo que deixei há 20 anos, quando vim viver para Lisboa.

 “Se há algo que recuso é o cinismo – prefiro a crença ao cinismo”

Quando estive pesquisando sobre sua vida, fiquei impressionado com a quantidade de coisas que você já fez ou vem fazendo: escritor, roteirista, ator, diretor, radialista, publicitário, blogueiro, professor de escrita criativa. O trabalho, ao que parece, não é um tormento para você. Como percebe o papel do trabalho na vida? Nunca teve vontade de mandar tudo às favas e viver como um filósofo cínico?

Tenho uma certa vocação para me dispersar até no trabalho – ainda sou muito “jovem”, sim. Neste momento sinto-me bem com as coisas que faço, desde a escrita de textos mais longos até aos programas de rádio. Espero não me transformar num filósofo cínico. Há um frase do Melancómico que também faço minha: “Se algum dia me virem cínico, levem-me a passear”. Há quem me considere cínico, possivelmente pelo riso com que vou atravessando alguns comentários, mas se há algo que recuso é o cinismo. Prefiro a crença ao cinismo. Aliás, acho que tenho caminhado para a crença. Se há algo que recuso nalguma arte e nalgum pensamento pós-modernos é o gesto de zombar de tudo e de todos e de se questionar permanentemente, numa espécie de virtuosismo exibicionista. Vim ao mundo – fui chamado ao quadro pela professora – para me comover com o mundo.

Entre todos os tipos de trabalho que você já fez ou ainda faz, qual é aquele que ainda lhe dá mais prazer?

Talvez eu seja mais um bicho da escrita, embora teime em aparecer de vez em quando. Tenho tido sorte de caminhar para projetos que me vão preenchendo e é isso que me interessa. E quando digo preencher falo de instantes em que penso “Isto faz mesmo sentido!”. Sinto isso por exemplo quando assisto ao espectáculo “É Preciso Ir Ver – uma Viagem com Jacques Brel”, representado pelo Dinarte Branco. Está lá muita coisa que me interessa passar: uma boa história reveladora da natureza humana, poesia, riso, tudo aquilo que penso que dignifica isto de andar por aqui, vivo.

O músico multi-instrumentista B Fachada, criador do "Tema do Melancómico"

Gostaria de ter trabalhos mais “românticos”, como, por exemplo, ser um marinheiro, um caçador, um astronauta ou, vá lá, um empresário milionário?     

O B Fachada, no “Tema do Melancómico”, diz que ao personagem só falta ter um gato ou um marinheiro. Não sei o que é que ele quis dizer com isso e ainda um dia vamos conversar seriamente sobre esse magno assunto. Eu, Nuno, gosto de dar uma volta de vez em quando, de vestir outras peles. Das três possibilidades apresentadas acho que recusava apenas a última. Preciso de dinheiro apenas para contribuir condignamente para o orçamento doméstico e para alguns mimos como discos, livros, idas ao cinema e ao teatro. E viagens, sim. Há algumas viagens que gostaria de fazer. Há mais bairros para conhecer.

As aventuras do Melancómico transcorrem dentro de um bairro, junto aos tipos e lugares conhecidos. Você, Nuno, também aprecia a vida no bairro, tranquila, rodeada de rostos conhecidos?

Sou mais do bairro. Os espaços amplos, os edifícios grandiosos assustam-me um pouco. Sou mais pelos tetos baixos. Gosto de visitar cidades grandes, mas nelas procuro o refúgio do pequeno café, da pequena praça, do anônimo disponível para ter uma pequena conversa. A abstração não é comigo.

 “O humor português é hoje um dia um humor muito contaminado pelo stand-up americano. Devo dizer que isso chateia um pouco”

Costuma-se dizer que existe um “humor inglês”, tipicamente britânico. Você acredita que há um “humor português”?

O humorista português Raul Solnado, falecido em 2009, é considerado por Nuno um dos ícones do "humor português"

É uma ideia algo polêmica. Tenho um amigo, o João Bonifácio, que fez um trabalho jornalístico sobre o assunto. Penso que há algo que pode caracterizar um certo tipo de humor português. Encontro um humor tipicamente português, na maneira como o imagino, se calhar um pouco romantizada, no cómico Raul Solnado, já falecido. É uma mistura entre humor e melancolia. Entre riso e um ser frágil e merecedor da maior das ternuras por isso mesmo. O humor português é hoje um dia um humor muito contaminado pelo stand-up americano. Devo dizer que isso chateia um pouco. O humor ou é rasgo original e voz própria ou não tem surpresa. Ou não é humor.

Um dos traços mais conhecidos do caráter português é a “saudade”, um sentimento misto de melancolia e vazio, personificado exemplarmente na obra de Fernando Pessoa. Mas eu lhe pergunto: o português sente saudades de que?  

Boa pergunta (risos)! Sobre o Pessoa, acho era mais um adiantado mental e espiritual – aqui é um elogio – do que um ser dotado de um espírito meramente fadista. Tinha demasiados “eus” para ficar estacionado numa tristeza muitas vezes abstracta e pouco convicente. O português, se calhar, tem saudade daquilo que nunca foi. E isso não deixa de ser bonito. Faz parte do nosso lado sonhador e eternamente adolescente – não confundir com “jovem”, palavra que muito irrita. Somos também uns grandessíssimos sentimentalões. Temos saudades do amigo de quem nos despedimos há cinco minutos e com quem vamos tomar um copo daqui a dez. Gostamos de dramatizar e de ter pena de nós próprios. E por isso escrevemos e cantamos ou fazemos manifestações. Gosto que sejamos assim.

 “O português, se calhar, tem saudade daquilo que nunca foi. E isso não deixa de ser bonito”

Em uma crônica intitulada “O Problema da Raça”, o Miguel Esteves Cardoso dizia que “Não se conhece o português pela cara. É pela expressão. (…) É gente aflita. (…) O português tem cara de preocupado”. É exatamente a impressão que eu tenho assistindo aos vídeos do “Melancómico”, que ele está sempre com uma ânsia, sempre desencontrado. Concorda com a observação dele?

Desencontrado ou desenquadrado são boas expressões para definir um certo estado de espírito do Melancómico. Mas atenção que não ele não é personagem monocórdico. Acredita nos pequenos milagres, ao virar da esquina. Ele dança e acredita nas redenções de bairro. Sim, pode-se dizer que os portugueses têm cara de preocupados. Sobretudo no metro. No metro, diz o Melancômico, as pessoas sentem-se obrigadas a fazer cara de metro. Em Portugal, os homens e mulheres sentem-se muitas vezes obrigados a fazer cara de portugueses. É uma obrigação social. Ficaria mal se fosse diferente. Considero que é preciso cada vez mais ter cuidado em tentar definir Portugal de uma forma uniforme. Há vários países em Portugal. Há um país crioulo, vivo, viajado, misturado, que pouco tem a ver com um Portugal que existia e que se podia tentar definir com uma só etiqueta. E mesmo aí era fácil ser-se redutor.

O filósofo franco-romeno Emil-Michel Cioran, autor de obras de auto-ajuda como "Nos Cumes do Desespero" e "Do Inconveniente de Ter Nascido", que "aparece" em um dos episódios do "Melancômico"

 Em um dos episódios do “Melancómico” é recomendado um livro do Cioran. Em alguns de seus aforismos, surge um suave sentimento da melancolia. Qual é o seu nível de melancolia? Chega ao nível desesperador e angustiante de um Cioran? 

Sou um grande apreciador de Cioran. Essa é a primeira resposta que posso dar a esta pergunta. Penso que Cioran não deixava de ser um provocador supremo e nesse sentido afastava-se do desespero puro e duro. Ele era um pouco punk mas também sei que se interessou pelo budismo e nisso estamos em sintonia. O Melancómico transporta nos sacos de plástico a sua razoável dose de melancolia – deixaria de ter o nome que tem se assim não fosse. No meu caso posso dizer que é um sentimento que sinto de quando em vez – e nem sempre me causa incômodo. Acredito naquela ideia de haver uma melancolia feliz. Alguma que surge quando ouvimos música, vemos um filme ou lemos um livro. Hoje passei o serão a ouvir músicas no Youtube de uma das minhas bandas favoritas, os Red House Painters. São melancólicos? Provavelmente. E isso é tão bom.

 “Estranho quando encontro alguém sem uma pontinha de melancolia no olhar e na voz”

Você acredita que existem aspectos positivos na melancolia?

Sim. Há especialistas que dizem – gosto imenso de começar as frases assim – que dizem que quem tem uma dosezinha de melancolia é mais lúcido do que a generalidade das pessoas, reféns das suas próprias ilusões. Estranho quando encontro alguém sem uma pontinha de melancolia no olhar e na voz.

Em outro episódio aparece você manuseando o clássico “A Anatomia da Melancolia”. Já investigou as causas da melancolia? Chegou a alguma conclusão?

Já li alguma coisa sobre melancolia, inclusive o livro “Saturno nos Trópicos: a Melancolia Européia Chega ao Brasil”, de Moacyr Scliar. Confesso que não me interessa muito desmontar as causas. Como tenho afirmado nesta entrevista, gosto até certo ponto de sentir melancolia.  Quando me farto e acho que já é demais, procuro transformá-la noutra coisa. A minha relação com a melancolia é bastante pacífica e às vezes acho estranho que as pessoas olhem para o personagem Melancómico como um bicho raro e estranho. O Bukowski, que não é um escritor da minha família, tem uma frase na qual me reconheço: “A história da melancolia inclui todos nós”. Essa é uma verdade, por mais que tentemos olhar para a melancolia como algo que só acontece aos outros. Lembrei-me de uma frase melancómica: “Os outros é que vão à farmácia. Nós fazemos viagens”. Temos a mania que os outros é que vão à farmácia.

 “É bom para o espírito transformar a melancolia em comédia. Rir liberta”

A melancolia, em sua opinião, está necessariamente associada a um elemento cômico? Ser melancólico é ser um pouco cômico?

Eu acho que sim. É preciso estar disponível para sintonizar esse lado cômico. Tudo tem um lado cómico, não é? A melancolia, pelo seu exagero, também. Não há nada mais cômico do que um tristonho exagerado no meio de um conjunto de foliões. Um amigo, o Rogério Rodrigues, escreveu um provérbio chinês numa dedicatória que me fez num livro seu: “Tolera que a ave da melancolia pouse nos teus cabelos, mas nunca permitas que faça ninho na tua cabeça”. Escrevi um textinho para uma revista sobre o tema: hoje em dia, tendo em conta a tendência para ser engraçado à força, não há nada mais cômico do que ser sério. Depois há o lado terapêutico da coisa. É bom para o espírito transformar a melancolia em comédia. Rir liberta. É, para usar um clichê, uma arma. O Mark Twain dizia que é a única arma que resta à humanidade. Eu acho que há mais, mas não deixa de ser uma arma, desde que complementada por outras, que impliquem construção.

 “Há uma tradição fabulosa de cômicos que escondiam dentro de si uma monumental tristeza”

E com relação ao cômico, à graça, você acredita que há algo de melancólico no gracejo? Um grande escritor brasileiro, o Antônio Maria, dizia que o “os homens tristes, geralmente, fazem graça”. 

O que o genial Antônio Maria – também sou fã – queria dizer é que uma das formas que os triste têm de sobreviver a uma possível overdose de tristeza é lançar piadas. Há uma tradição fabulosa de cômicos que escondiam dentro de si uma monumental tristeza. A contracapa da primeira recolha de frases melancômicas têm a seguinte frase: “Desde sempre que é assim. Há alguns humoristas a fazer a pose do melancólico. Mas o que há mais é melancólicos a fazer a pose do humorista”. Parece querer responder a essa perguntinha.

O que é que você pensa do fato de a Igreja Católica ter considerado a melancolia um pecado capital até o Séc. XVII?

É um gesto verdadeiramente melancómico da Igreja Católica. Só posso dar graças a  Deus por não ter nascido até esse século. Agora que penso nisso: há música sublimemente melancólica com temas bíblicos. Eu sou fã do “Stabat Mater”, do Pergolesi, por exemplo, que é de 1736. Eu e uma data de amigos da adolescência, que o ouviam entre Cure e My Bloody Valentine.

O João Pereira Coutinho disse, em uma postagem no Facebook, que o “Nuno Costa Santos é o Woody Allen luso”. Consegue enxergar alguma semelhança entre você e o diretor americano?

Nuno Costa Santos foi chamado de "o Woody Allen luso" pelo intelectual português João Pereira Coutinho, colunista da Folha de São Paulo

Sou um grande adepto deste senhor e isso deve ter a ver com o fato de sentir uma afinidade clara com ele. A coisa de brincar com as pequenas angústias – dando a ideia de que são pessoais: algumas serão, outras são empolamentos matreiros – é-me muito atraente. Depois há aquele lado estético, o seu bom gosto, o fato de gostar de jazz, a circunstância de estar sempre a sabotar a sua vaidade dizendo que os seus filmes não são nada de especial. Isso é Woody Allen.

Se você pudesse ter escrito e dirigido um filme de Woody Allen, qual seria? E por quais motivos?

Lembro-me de ter delirado com “As Faces de Harry”, por exemplo. Não quero dar uma resposta frouxa mas tenho de dizer que vejo a obra de Woody Allen como um todo. É aquele imaginário, aquele tipo de comentário e situação que me atraem, não certos filmes em particular. Às vezes confundo-os um pouco e isso não é uma crítica.

Gostaria de abordar agora um pouco o “Melancómico” programa televisivo – e virtual. Como surgiu o “Melancómico”, quais foram as pessoas que estavam envolvidas?

A ideia partiu dos clips que havia feito há uns anos com uma dupla chamada Daltonic Brothers. Queria desenvolver a possibilidade de ficcionar um pouco a existência de um personagem solitário que passa a vida a escrever frases sobre o sentido da vida e a ida ao supermercado. Um homem na cidade que procura conforto nos limites do bairro. A entrada no processo do realizador Tiago Carvalho foi decisiva. O nosso entendimento é muito grande – e às vezes brinco com ele dizendo que ele é que é o verdadeiro melancômico. Considero o trabalho um momento de grande partilha com o Tiago, resultado das nossas trocas de ideias entre duas gravações. A Inês Eusébio, produtora, também foi decisiva. Tornava práticas as nossas pretensões. É uma mulher de ação e foi o melhor que podia ter acontecido a uma personagem melancómica e hesitante.

 “Depois de eu ter feito uma série de perguntas em tom semi-existencialista ao Pedro, um dos barbeiros também resolveu intervir, perguntando: ‘Por que é que, depois de a vida ser tão boa, a gente morre?'”

O escritor e crítico português Pedro Mexia, que participou de um episódio de "Melancómico"

Você tem alguma história de bastidores bizarra ou cômica para contar? Houve algum episódio particularmente interessante pelas dificuldades que suscitou?

Talvez alguns dos episódios mais divertidos se tenham passado nos lugares onde fizemos as entrevistas que também passavam no programa. Invadimos generosamente mercearias, farmácias, barbearias. Numa barbearia onde conversei com o Pedro Mexia houve um momento engraçado: depois de eu ter feito uma série de perguntas em tom semi-existencialista ao Pedro, um dos barbeiros também resolveu intervir, perguntando: “Por que é que, depois de a vida ser tão boa, a gente morre?”.

Por que se decidiu por um ponto final no “Melancómico”, em julho de 2011?

Por uma razão simples: por achar que tinha esgotado, pelo menos naquela fase, a vontade de contar pequenas histórias à volta do personagem. Para crescer precisávamos de fazer um melancómico com mais actores. Aquele modelo de personagem só a deambular pelo bairro esgotou-se. Terei defeitos e fragilidades muitas, mas penso ter a noção de quando devo estacionar.

 “Terei defeitos e fragilidades muitas, mas penso ter a noção de quando devo estacionar”

Na última postagem do blog do “Melancómico”, você disse que o programa poderá voltar em outros formatos. Isso já está certo? Em qual formato deverá ser?

Pensou-se num filme mas a ideia pode precisar de uma maturação (vulgo: financiamento). Já foi blogue, já foi livro, já foi programa de rádio e de televisão e também já foi crachá. Penso que ainda não chegou a altura de sair como jogo de computador. Mas pode chegar o dia.

Uma última pergunta, Nuno: você já descobriu por que praticantes de yoga dão bom dia ao sol?

Isso foi a pergunta que o João Bonifácio me fez na entrevista na farmácia, que acabou com um slow, que, juro, não repetimos até hoje. Desconheço a resposta, mas acho que a chuvinha também merecia um aceno.

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2 pensamentos sobre “Primeiro a rua, depois o resto: conversa com Nuno Costa Santos

  1. […] do Jonas, uma entrevista com o Nuno Costa Santos, escritor português cuja obra desconheço mas, a julgar pelo que diz, deve ser de primeira. Like […]

  2. Paulo Decq disse:

    olha que fixe! a amizade tb se procura na net. e isso é melancomico. enche a alma e dá tristeza. saudade boa. eterea e cosmica. temporal e suspensa no tempo

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