Ironia filosófica: conversa com Luiz Felipe Pondé

O filósofo Luiz Felipe Pondé. Foto de Marisa Cauduro/Folhapress.

Concorde-se ou não com as opiniões do filósofo pernambucano Luiz Felipe Pondé, 53, uma coisa todo mundo tem que admitir: ele é uma das personalidades mais controversas da grande imprensa nacional, atualmente tão entregue à pasmaceira, ao conchavo e ao bom-mocismo. Colunista do jornal Folha de São Paulo e autor de, entre outros, “Contra um Mundo Melhor” (Leya), Pondé é um rolo compressor que passa por cima de temas caros ao que vem se convencionando chamar de “politicamente correto”, como ambientalismo, democracia, igualdade e o que ele classifica como “psicologia social”. Seu mais novo livro, o recém-publicado “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia” (Leya), promete aprofundar e ampliar os tópicos que o pensador vem abordando em sua coluna. Doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Universidade de Paris, com pós-doutorado em Epistemologia pela Universidade de Tel Aviv (Israel), conservador em política – “mas liberal em todo o resto” – e representante de uma linhagem de pensadores que viveram em combate com as contradições comportamentais da sociedade em que viveram, como La Rochefoucauld e Cioran, Pondé fala, na entrevista a seguir, sobre os alvos de seu novo livro e sobre os fatores que propiciaram o surgimento do politicamente correto, entre outros assuntos.

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O senhor acaba de publicar um novo livro, o “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia”. O que ele traz de politicamente incorreto?

A ironia filosófica. Mais do que o ceticismo, que duvida do conhecimento e visa criar uma crise epistemológica, a ironia visa criar uma crise moral. A ironia está presente em argumentos que seguem de perto a posição do filosofo alemão Peter Sloterdijk, que é criar mal-estar no leitor a fim de levá-lo a pensar. O politicamente correto é uma forma de censura ao pensamento que visa sua anulação em nome de um falso bem. O livro é um louvor à coragem humana de enfrentar a vida sem fugir da dor que ela é.

O livro é um louvor à coragem humana de enfrentar a vida sem fugir da dor que ela é

O mais novo livro de Pondé, "Guia Politicamente Incorreto da Filosofia", publicado pela editora Leya

 Quais são os assuntos tratados no livro que deverão incomodar mais o leitor?

Feminismo, ambientalismo ingênuo, democracia, o leitor médio, psicologia social. Não há nada no livro sobre negros, homossexuais, judeus. É importante que não se desvirtue os temas dizendo que o livro diz o que não diz.

O livro se propõe a abordar criticamente os filósofos responsáveis pelo aparecimento do politicamente correto?

Supor que meu livro se concentre em criticar filósofos responsáveis pelo politicamente correto é um equívoco. Afora autores como Marx ou Rousseau, que são de alguma forma distantes responsáveis pelo politicamente correto, não sendo eles mesmo politicamente corretos – e, no caso de Marx, talvez hoje ele fosse considerado politicamente incorreto – o livro é muito mais uma crítica a temas contemporâneos assolados pelo politicamente correto e que atrapalham nossa vida e nosso pensamento público.

O politicamente correto se tornou um terrorismo sobre o pensamento público e serve a certos lobbies no mundo do pensamento e nada mais

O senhor vem se ocupando do politicamente correto já há algum tempo. Quais são os fatores que propiciaram o surgimento deste fenômeno?

O fator foi a mudança do cenário público americano, com negros – afro-americanos – frequentando cinemas, restaurantes, etc. Foi a entrada de certos grupos no mercado de consumo de serviços e comportamento. Antes, o lado bom do politicamente correto é a educação doméstica. Não se pode tratar mal as pessoas em festas, escolas, trabalho. Outra coisa é o argumento filosófico pragmático que afirma que pensamento e comportamento mudam se mudarmos as palavras que usamos. Se começo a achar estranho usar o masculino “homem” para designar “humanidade” isso me faz ver melhor as mulheres e ser menos machista. Acho que o politicamente correto se tornou um terrorismo sobre o pensamento público e serve a certos lobbies no mundo do pensamento e nada mais. O politicamente está reduzindo nossa capacidade de pensamento e argumentação, e nos fazendo ter medo do risco que implica pensar. É um dos instrumentos que empobrece a reflexão hoje.

O senhor assume-se como conservador em política e “liberal no resto”. Em sua opinião, em que situação se encontra o

O filósofo conservador britânico Michael Oakeshott. Para Pondé, universidades brasileiras precisam estudar pensadores de direita

conservadorismo no Brasil hoje?

Não há partido conservador no sentido britânico aqui. Há apenas diferentes espectros da esquerda, do PSDB ao PSOL ou PSTU, e há partidos fisiológicos, oportunistas e coronelistas. Para combater isso precisamos deixar os alunos lerem outros autores além de Hegel, Marx e Foucault. Precisamos ampliar nossa bibliografia pra Tocqueville, Hume, Locke, Smith, Oakeshott, Burke, Nisbet, Sowell, Kirk, no sentido político deles. Lê-los não apenas como bichos estranhos a serem criticados – e devo dizer que Tocqueville se conhece um pouco melhor aqui. E, quanto à mídia, abrir espaços para articulistas, principalmente mais jovens, que circulam por esta bibliografia.

A esquerda dá a você uma idéia de si mesmo como bonzinho porque o mal é o capitalista e não você e a natureza humana

O senhor já acusou, no ensino universitário brasileiro, uma predominância do pensamento mais inclinado à esquerda. Quais são as origens deste fenômeno?

A raiz deste problema está na predominância da formação franco-alemã entre nós e a ausência da britânica. Também a tendência da esquerda em ser uma nova religião – e intelectuais gostam de igrejinhas e discípulos. E também o fato da necessidade de criticar a sociedade – o que é necessário mesmo – e apenas saber fazê-lo pela esquerda. Outra coisa problemática é o fato de que a esquerda dá a você uma idéia de si mesmo como bonzinho porque o mal é o capitalista e não você, e não a natureza humana, que facilmente tende à falsidade e ao egoísmo.

Qual é, em sua opinião, o maior pecado da mentalidade esquerdista?

O maior pecado da esquerda é a mentira intelectual e a falsidade moral e o vício de estar no poder institucional na educação há muito tempo. Isso não quer dizer que não existam pessoas bem intencionadas, mas deveriam estudar mais.

Para Pondé, Igreja Católica entende a natureza humana, mas comete o pecado de ser "excessivamente conservadora"

 No livro “Para Entender o Catolicismo”, o senhor aponta os impasses e transformações da Igreja Católica nos últimos séculos. Onde o senhor acha que a Igreja tem errado e tem acertado nos últimos anos?

Acerta no fato de que ela entende bem da natureza humana e seus pecados, tem um bom modelo orientador de sua ação. Erra porque, como toda instituição excessivamente conservadora, ela tende à inércia e ficar lenta no enfrentamento de demandas contemporâneas.

Em uma entrevista à “Veja”, o senhor deu a entender que estava abandonando o ateísmo. Como é que o senhor lida hoje com o problema do sentido último da vida humana? Ele está mesmo fora deste mundo?

Disse que o ateísmo é filosoficamente mais simples e fácil. Um universo com um Deus parece um enigma maior para mim. Mas permaneço filosoficamente ateu e não preciso de fé religiosa na vida. Não acredito em sentido último da vida.

 “Um universo com um Deus parece um enigma maior para mim”

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2 pensamentos sobre “Ironia filosófica: conversa com Luiz Felipe Pondé

  1. Sheila Nunes disse:

    Sou suspeitíssima porque sou profunda admiradora de Pondé. A descoberta das produções e pensamento contundente de Pondé, que me foi indicado por meu psiquiatra a partir de Contra um Mundo Melhor fizeram com que me sentisse mais confortável comigo mesma, me aceitando mais como sou. Obrigada Pondé.

  2. Jackson Carvalho disse:

    De fato, há muito que se pensar e até mesmo se nós somos os pais do bem e do mal, vemos o mundo de uma forma, por exemplo, diferente dos orientais e isso já demonstra uma diferença unânime de que quanto mais estamos preocupados em achar a verdade mais escondida ela fica, ou seja, a verdade só serve para sabermos dela, por outro lado, há na verdade as questões de que precisamos para os fundamentos do mudo, ou seja, ela é o porque da coisa, o porque da ação, mas esse porque é misterioso e ilusório, pois toda a verdade e ação da vida não se trata do porque, mas sim do por quem…Conheço pessoas que são felizes por acordar todos os dias e alimentar seus animais, em seguida trabalhão dia após dia no sol e não vejo tristezas em seus rostos. Na verdade queremos a perfeição, mas nunca iremos acha-la, pois ela é a ilusão da vida…

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